'

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Ensaio sobre a tristeza



O quarto está inabitável. Não tem ninguém em casa e ela vai passar a semana toda sozinha. O fim de semana foi divertido, mas era segunda e o silêncio consumia seu interior. O dia correu em denso torpor, mas foi quando ela chegou da faculdade e ligou a TV no filme maluco, que os pensamentos voaram longe a cada frase de seu ator preferido. Silêncio. E tanto barulho. Palavras e mais palavras gritando em sua mente, esmagavam suas esperanças sem dó. Rejeição. Esquecimento. Seus maiores medos nunca declarados, mas que nasceram com ela, agora na sua frente.
Ela se lembra de cada aniversário com aquela ausência. Aquela falta. As festas na escola. Todos os momentos em que ele não estava lá. E agora tudo de novo. Aquele vazio tomando conta do seu coração. Ela sempre quis ser aceita, amada, querida, importante. Mas tudo nunca foi suficiente. Insignificante desde sempre, ela nunca encontrou seu lugar no mundo. Nada que ela faça bem, faça falta. Ninguém é mesmo insubstituível.
O filme acabou e mesmo assim ela não conseguiu dormir. A vontade do desabafo fala sempre mais alto e a impulsividade de menina ajuda a pôr teoria em prática. Dito. E feito. Hora de dormir afogada na umidade do travesseiro.

Amanheceu lá fora. Com o modo automático ligado, ela nem olha no espelho para não encontrar a vermelhidão e o inchaço dos olhos. Dia difícil. Tudo o que ela não precisava, tudo o que não queria. Um por um, os fatos chegaram ao longo do dia corrido. Cortes e feridas. O mundo desabando lá fora. Em uma proporção bem menor do que dentro dela, é claro. O caos instalado e mãos atadas. Sem condições de assistir às aulas. Deitada no chão. Hora de dormir. Acabou. Ela não queria mais acordar.

Esforços. O mundo cobra. Mas quem disse que ela tem força alguma? Vontade de correr, de sumir. Apressada para o trabalho, ela sai sem olhar pra trás. Fugindo de mais qualquer problema que possa aparecer. Considerações. De fato, o problema sempre foi ela mesma? Sem nenhuma razão? Não. Com razão. Alguns erros talvez. Talvez muitos. Mas com alguma razão, enfim. A revolta da humilhação se sobressaindo. Mas ela não esteve sempre tão acostumada com isso? Bem treinada e vacinada? Também não. Coração nenhum é imune ao abandono. O dela, em específico, foi ensinado a aceitar, a se culpar, a se trocar por uma felicidade alheia qualquer. É comum a ela derramar uma lágrima para ver um sorriso em outro rosto. Quem a conhece um pouco sabe disso. E costuma usar. Obediência. Ela também sabe se comportar. Uma fez o pedido feito, é aceito. Mesmo sem se conformar. Mesmo sem deixar de se machucar. Sumir.
Apesar de tudo, de todos os hematomas e pontos, o coração da menina ainda sabe amar. E não carrega orgulho. Não sabe odiar. Tem memória fraca para o sofrimento recebido. Sem saber se é certo com ela mesma, vai e faz. Fala. Ama de qualquer jeito, certo ou errado. Encontra defeitos em si mesma, para apagar os defeitos dos outros. Prefere aceitar a culpa mesmo não a tendo. Pode falar, ele sabe mesmo machucar. Conhece seus pontos fracos e consegue enterrar a sete palmos o que já estava no chão. Sem problemas, sem mágoa ou ressentimento. O que ela sente é intacto, e isso é uma das poucas coisas boas que ela carrega. Sem direito de tirar. As frases boas de amor são as que ficam em sua mente, junto com a pergunta: “Por que mudou? Você se esqueceu?”. Passado ou futuro, ou passado do futuro, o amor continua latejando forte dentro do frágil corpo de moça. Ela sabe que vai conviver dias a fio com os olhos úmidos e a voz embargada. Ou não vai conviver com nada mais. Outra cor de céu. Outra vida.
Quem sabe após o fato consumado, o amor renegado se tornará eterno. Ela não estará aqui para ver.

Nenhum comentário :

Postar um comentário